BNCC Para a Área de Ensino Religioso - Anos Iniciais do Ensino Fundamental - 1º, 2º, 3º, 4º e 5º Anos

 


4.5. A área de Ensino ReligiosoAo longo da história da educação brasileira, o Ensino Religioso assumiu diferentes perspectivas teórico-metodológicas, geralmente de viés confessional ou interconfessional. A partir da década de 1980, as transformações socioculturais que provocaram mudanças paradigmáticas no campo educacional também impactaram no Ensino Religioso. Em função dos promulgados ideais de democracia, inclusão social e educação integral, vários setores da sociedade civil passaram a reivindicar a abordagem do conhecimento religioso e o reconhecimento da diversidade religiosa no âmbito dos currículos escolares.A Constituição Federal de 1988 (artigo 210) e a LDB nº 9.394/1996 (artigo 33, alterado pela Lei nº 9.475/1997) estabeleceram os princípios e os fundamentos que devem alicerçar epistemologias e pedagogias do Ensino Religioso, cuja função educacional, enquanto parte integrante da formação básica do cidadão, é assegurar o respeito à diversidade cultural religiosa, sem proselitismos. Mais tarde, a Resolução CNE/CEB nº 04/2010 e a Resolução CNE/CEB nº 07/2010 reconheceram o Ensino Religioso como uma das cinco áreas de conhecimento do Ensino Fundamental de 09 (nove) anos51.Estabelecido como componente curricular de oferta obrigatória nas escolas públicas de Ensino Fundamental, com matrícula facultativa, em diferentes regiões do país, foram elaborados propostas curriculares, cursos de formação inicial e continuada e materiais didático-pedagógicos que contribuíram para a construção da área do Ensino Religioso, cujas natureza e finalidades pedagógicas são distintas da confessionalidade.Considerando os marcos normativos e, em conformidade com as competências gerais estabelecidas no âmbito da BNCC, o Ensino Religioso deve atender os seguintes objetivos:Proporcionar a aprendizagem dos conhecimentos religiosos, culturais e estéticos, a partir das manifestações religiosas percebidas na realidade dos educandos;Propiciar conhecimentos sobre o direito à liberdade de consciência e de crença, no constante propósito de promoção dos direitos humanos;Desenvolver competências e habilidades que contribuam para o diálogo entre perspectivas religiosas e seculares de vida, exercitando o respeito à liberdade de concepções e o pluralismo de ideias, de acordo com a Constituição Federal;Contribuir para que os educandos construam seus sentidos pessoais de vida a partir de valores, princípios éticos e da cidadania.O conhecimento religioso, objeto da área de Ensino Religioso, é produzido no âmbito das diferentes áreas do conhecimento científico das Ciências Humanas e Sociais, notadamente da(s) Ciência(s) da(s) Religião(ões). Essas Ciências investigam a manifestação dos fenômenos religiosos em diferentes culturas e sociedades enquanto um dos bens simbólicos resultantes da busca humana por respostas aos enigmas do mundo, da vida e da morte. De modo singular, complexo e diverso, esses fenômenos alicerçaram distintos sentidos e significados de vida e diversas ideias de divindade(s), em torno dos quais se organizaram cosmovisões, linguagens, saberes, crenças, mitologias, narrativas, textos, símbolos, ritos, doutrinas, tradições, movimentos, práticas e princípios éticos e morais. Os fenômenos religiosos em suas múltiplas manifestações são parte integrante do substrato cultural da humanidade.Cabe ao Ensino Religioso tratar os conhecimentos religiosos a partir de pressupostos éticos e científicos, sem privilégio de nenhuma crença ou convicção. Isso implica abordar esses conhecimentos com base nas diversas culturas e tradições religiosas, sem desconsiderar a existência de filosofias seculares de vida.No Ensino Fundamental, o Ensino Religioso adota a pesquisa e o diálogo como princípios mediadores e articuladores dos processos de observação, identificação, análise, apropriação e ressignificação de saberes, visando o desenvolvimento de competências específicas. Dessa maneira, busca problematizar representações sociais preconceituosas sobre o outro, com o intuito de combater a intolerância, a discriminação e a exclusão.Por isso, a interculturalidade e a ética da alteridade constituem fundamentos teóricos e pedagógicos do Ensino Religioso, porque favorecem o reconhecimento e respeito às histórias, memórias, crenças, convicções e valores de diferentes culturas, tradições religiosas e filosofias de vida.O Ensino Religioso busca construir, por meio do estudo dos conhecimentos religiosos e das filosofias de vida, atitudes de reconhecimento e respeito às alteridades. Trata-se de um espaço de aprendizagens, experiências pedagógicas, intercâmbios e diálogos permanentes, que visam o acolhimento das identidades culturais, religiosas ou não, na perspectiva da interculturalidade, direitos humanos e cultura da paz. Tais finalidades se articulam aos elementos da formação integral dos estudantes, na medida em que fomentam a aprendizagem da convivência democrática e cidadã, princípio básico à vida em sociedade.Considerando esses pressupostos, e em articulação com as competências gerais da Educação Básica, a área de Ensino Religioso – e, por consequência, o componente curricular de Ensino Religioso –, devem garantir aos alunos o desenvolvimento de competências específicas.


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Área de Ensino Religioso nas Páginas 435 - 451


Currículo Base Para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental na Disciplina de Ensino Religioso - 1º, 2º, 3º, 4º e 5º Anos

 



8 ÁREA: ENSINO RELIGIOSO A BNCC (2018, p. 435), indica que a área do Ensino Religioso é garantida pela Constituição Federal de 1988 (artigo 210) e pela LDB nº 9.394/1996 (artigo 33, alterado pela Lei nº 9.475/1997). Estes dispositivos legais “(...) estabeleceram os princípios e os fundamentos que devem alicerçar epistemologias e pedagogias do Ensino Religioso, cuja função educacional, enquanto parte integrante da formação básica do cidadão, é assegurar o respeito à diversidade cultural religiosa, sem proselitismos. Mais tarde, a Resolução CNE/CEB nº 04/2010 e a Resolução CNE/CEB nº 07/2010 reconheceram o Ensino Religioso como uma das cinco áreas de conhecimento do Ensino Fundamental de 09 (nove) anos”. Componente curricular de oferta obrigatória nas escolas públicas e com matrícula facultativa, o ensino religioso tem as seguintes competências para o ensino fundamental. 437 COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE ENSINO RELIGIOSO PARA O ENSINO FUNDAMENTAL 1. Conhecer os aspectos estruturantes das diferentes tradições/movimentos religiosos e filosofias de vida, a partir de pressupostos científicos, filosóficos, estéticos e éticos. 2. Compreender, valorizar e respeitar as manifestações religiosas e filosofias de vida, suas experiências e saberes, em diferentes tempos, espaços e territórios. 3. Reconhecer e cuidar de si, do outro, da coletividade e da natureza, enquanto expressão de valor da vida. 4. Conviver com a diversidade de crenças, pensamentos, convicções, modos de ser e viver. 5. Analisar as relações entre as tradições religiosas e os campos da cultura, da política, da economia, da saúde, da ciência, da tecnologia e do meio ambiente. 6. Debater, problematizar e posicionar-se frente aos discursos e práticas de intolerância, discriminação e violência de cunho religioso, de modo a assegurar os direitos humanos no constante exercício da cidadania e da cultura de paz. Por isso, a interculturalidade e a ética da alteridade constituem fundamentos teóricos e pedagógicos do Ensino Religioso, porque favorecem o reconhecimento e respeito às histórias, memórias, crenças, convicções e valores de diferentes culturas, tradições religiosas e filosofias de vida. O Ensino Religioso busca construir, por meio do estudo dos conhecimentos religiosos e das filosofias de vida, atitudes de reconhecimento e respeito às alteridades. Trata-se de um espaço de aprendizagens, experiências pedagógicas, intercâmbios e diálogos permanentes, que visam o acolhimento das identidades culturais, religiosas ou não, na perspectiva da interculturalidade, direitos humanos e cultura da paz. Tais finalidades se articulam aos elementos da formação integral dos estudantes, na medida em que fomentam a aprendizagem da convivência democrática e cidadã, princípio básico à vida em sociedade. Considerando esses pressupostos, e em articulação com as competências gerais da Educação Básica, a área de Ensino Religioso – e, por consequência, o componente curricular de Ensino Religioso –, devem garantir aos alunos o desenvolvimento de competências específicas. Fonte: BRASIL. MEC. Base Nacional Comum Curricular, 2018.

8.1 ENSINO RELIGIOSO Consultora Simone Riske-Koch Grupo de trabalho Djanna Zita Fontanive Ediana Maria Mascarello Finatto Terezinha de Fátima Juraczky Scziminski Vera Inez Scholl Corti 8.1.1 Texto introdutório Desde tempos imemoriais, o fenômeno religioso está presente nas diversas culturas como resultado da busca por respostas para os questionamentos da existência humana. Indagações como “Quem sou?”, “De onde vim?”, “Para onde vou?”, “O que faço aqui?” possibilitaram que cada povo e etnia, em distintos territórios e territorialidades, produzissem códigos, conhecimentos e sentidos para suas experiências cotidianas. Das relações tecidas com os aspectos imanentes e transcendentes da existência, emergiu um conjunto de conhecimentos simbólicos que alicerçaram concepções sobre a(s) divindade(s), em torno das quais se organizaram cosmopercepções, cosmovisões, crenças, mitologias, textos, ritos, doutrinas, práticas e princípios éticos e morais. Assim, “[...] os fenômenos religiosos em suas múltiplas manifestações são parte integrante do substrato cultural da humanidade” (BRASIL, 2017, p. 432). Os conhecimentos religiosos são parte integrante da diversidade cultural e objeto da área do Ensino Religioso, sem privilégio de nenhuma crença ou convicção. É válido recordar que as manifestações, as tradições religiosas e as filosofias de vida, assim como as próprias culturas, ao legitimarem intencionalidades políticas, sociais e econômicas exclusivistas, apresentam, muitas vezes, crenças, doutrinas e práticas contraditórias, que podem provocar tanto a libertação quanto a opressão, a inclusão e a exclusão, a paz e a guerra. A vontade de poder, que frequentemente traduz-se no desejo de posse da verdade, pode se converter em dominação sobre grupos e/ou minorias. No contexto latino-americano, por exemplo, ao longo de quatro séculos, a diversidade cultural, e seus decorrentes sistemas simbólico-religiosos, foi combatida, perseguida e invisibilizada em nome de um processo colonizador, onde culturas, saberes, religiosidades e valores indígenas, africanos e de minorias étnicas foram considerados elementos a serem combatidos, convertidos e subalternizados em nome de um ideal civilizatório monocultural. (BRASIL, 2016, p. 169).

Desse modo, crenças religiosas podem justificar a falsa percepção de que existe somente uma única verdade, endossando concepções e práticas opressivas e exploradoras, subvertendo sentidos e alienando pessoas em favor de interesses particulares, em detrimento dos interesses coletivos. Cabe ao Ensino Religioso contribuir, por meio do estudo dos conhecimentos religiosos e das filosofias de vida, na construção de atitudes de reconhecimento e respeito às alteridades, na promoção da liberdade religiosa e dos direitos humanos. E, também, desenvolver práticas pedagógicas na perspectiva da interculturalidade que questionem e enfrentem processos de exclusões e desigualdades, e que encaminhem vivências fundamentadas no conhecer, no respeitar e no conviver entre os diferentes e as diferenças. Os princípios e os fundamentos que alicerçam as epistemologias e as pedagogias do Ensino Religioso são decorrentes do artigo 210 da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988), do artigo 33 da LDB Nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (BRASIL, 1996), da Resolução Nº 4, de 13 de julho de 2010 (BRASIL, 2010a) e da Resolução Nº 7, de 14 de dezembro de 2010 (BRASIL, 2010b). Esses documentos reconheceram o Ensino Religioso como uma das cinco áreas de conhecimento do Ensino Fundamental de nove anos. Esses marcos normativos estabelecem a função educacional e o Ensino Religioso não confessional, como parte integrante da formação básica do cidadão, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa, sem proselitismos. No Estado de Santa Catarina, o Ensino Religioso está disposto na Lei Complementar Nº 170/1998, regulamentado pelo Decreto Nº 3882/2005. Constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas, de oferta obrigatória e matrícula facultativa, cuja natureza e finalidades pedagógicas são distintas da confessionalidade. Em conformidade com os direitos de aprendizagens e desenvolvimento por meio das competências e das habilidades estabelecidas na BNCC (BRASIL, 2017), o Ensino Religioso deve atender aos seguintes objetivos: a) conhecer os aspectos estruturantes das diferentes manifestações, tradições religiosas e filosofias de vida, embasados em pressupostos científicos, filosóficos, estéticos e éticos, a partir das manifestações percebidas na realidade dos educandos; b) compreender, valorizar e respeitar as manifestações, tradições religiosas e filosofias de vida, suas experiências e saberes, em diferentes tempos, espaços e territórios, no constante propósito de promoção dos direitos humanos; c) reconhecer e cuidar de si, do outro, da coletividade e da natureza, como expressão de valor da vida. d) conviver com a diversidade de crenças, de pensamentos, de convicções, de modos de ser e de viver exercitando o respeito à liberdade de concepções, o pluralismo de ideias e a cidadania; e) analisar as relações entre as manifestações, tradições religiosas e filosofias de vida e os campos da cultura, da política, da economia, da saúde, da ciência, da tecnologia e do meio ambiente para a construção de projetos de vida. f) debater, problematizar e posicionar-se frente aos discursos e às práticas de intolerância, discriminação e violência de cunho religioso, de modo a assegurar os direitos humanos no constante exercício da cidadania e da cultura de paz. O currículo do Ensino Religioso, articulado às demais áreas e componentes curriculares do Ensino Fundamental, adaptando ao posto na BNCC (BRASIL, 2017), organiza-se a partir das seguintes unidades temáticas:  Identidades, diversidades e alteridades, a ser abordada ao longo de todo o Ensino Fundamental, especialmente nos anos iniciais. Nessa unidade, pretende-se que os estudantes reconheçam, valorizem e acolham o caráter singular e diverso do ser humano, por meio da identificação e do respeito às semelhanças e diferenças entre o eu (subjetividade) e os outros (alteridades), da compreensão dos símbolos e dos significados e da relação entre imanência e transcendência.  Manifestações religiosas, em que se pretende proporcionar o conhecimento, a valorização e o respeito às distintas experiências e manifestações religiosas, e a compreensão das relações estabelecidas entre as lideranças e as denominações religiosas e as distintas esferas sociais.  Crenças religiosas e filosofias de vida, são tratados aspectos estruturantes das diferentes tradições/movimentos religiosos e filosofias de vida, particularmente sobre os mitos, ideia(s) de divindade(s), crenças e doutrinas religiosas, tradições orais e escritas, ideias de imortalidade, princípios e valores éticos. Frente a isso, apresentamos, no Apêndice A deste texto, o quadro síntese do currículo, as indicações metodológicas e avaliativas do Ensino Religioso para os nove anos do Ensino Fundamental.

8.1.2 Indicações metodológicas O Ensino Religioso, como área do conhecimento, visa a formação básica e integral do ser humano e o respeito à diversidade cultural e religiosa presente na sociedade brasileira. Os encaminhamentos teórico-metodológicos do estudo das religiões e das filosofias de vida na escola catarinense articulam-se aos ideais de formação humana, cultural e cidadã, respeitados os princípios da laicidade do Estado na educação. De acordo com a BNCC (2017), o Ensino Religioso tem como objeto da área o conhecimento religioso produzido no âmbito das Ciências da Religião, das culturas e das tradições religiosas (indígenas, africanas, afro-brasileiras, judaico, cristã e islâmica, espíritas, hindus, chinesas, japonesas, semitas, movimentos místicos, esotéricos, sincréticos, entre muitos outros), em um intrínseco diálogo com as filosofias de vida, as quais se ancoram em princípios cujas fontes advêm de fundamentos racionais, filosóficos, científicos, entre outros. Assume a interculturalidade e a ética da alteridade como fundamentos teóricos e pedagógicos, porque favorecem o reconhecimento e o respeito às histórias, às memórias, às crenças, às convicções e aos valores de diferentes culturas, tradições religiosas e filosofias de vida. Tais finalidades articulam-se aos elementos da formação integral dos estudantes, na medida em que fomentam a aprendizagem da convivência democrática e cidadã, princípios básicos à vida em sociedade. Metodologicamente, o Ensino Religioso adota a pesquisa e o diálogo interativo como princípios mediadores e articuladores dos processos de observação, identificação, análise, apropriação e ressignificação de saberes, visando o desenvolvimento de habilidades e competências específicas (BRASIL, 2017). A mediação do processo de ensino-aprendizagem tem de priorizar metodologias ativas, interativas e integradoras. Não significa, com isso, a fusão das diferenças, mas um constante exercício de convivialidade e de mútuo reconhecimento das raízes culturais do outro e de si mesmo, de modo a valorizar e respeitar a história, os conhecimentos, as experiências de distintas cosmovisões que, direta ou indiretamente, constituem aspectos das identidades pessoais e coletivas. Assim sendo, o percurso formativo do Ensino Religioso deve ser organizado em acordo com as peculiaridades do meio e das características, interesses e necessidades dos estudantes, articulado ao projeto pedagógico da escola. Os saberes do cotidiano devem, por conseguinte, dialogar com os demais conhecimentos que, quando apropriados, levam a formas mais científicas de pensar e agir (SANTA CATARINA, 2014).

Desde uma perspectiva sociointeracionista, o ser humano é concebido como resultado de processos que ele próprio conduz. Ele é autor da história ao mesmo tempo que é determinado por ela. Por isso, é de fundamental importância valorizar e fomentar o desenvolvimento do espírito investigativo e do pensamento teórico por meio da atividade de aprendizagem, espaço institucionalizador do desejo de aprender (SANTA CATARINA, 2014). No contexto da atividade de aprendizagem em Ensino Religioso, o estudante é agente ativo do processo de apropriação e de ressignificação do conhecimento religioso veiculado na escola, por meio do qual estabelece conexões com saberes prévios, experiências pessoais ou fenômenos sociais. Na medida em que conhece o conjunto de aspectos estruturantes das tradições/movimentos religiosos e filosofias de vida, bem como as distintas manifestações religiosas em sua dimensão estética, ética e mítico-simbólica, o estudante terá as condições e referenciais para compreender e problematizar representações sociais preconceituosas sobre o outro, posicionando-se contra a intolerância, a discriminação e a exclusão motivadas por questões religiosas. O Ensino Religioso busca construir, por meio do estudo dos conhecimentos religiosos e das filosofias de vida, atitudes de reconhecimento e respeito às alteridades. Trata-se de um espaço de aprendizagens, experiências pedagógicas, intercâmbios e diálogos permanentes, que visam o acolhimento das identidades culturais, religiosas ou não, na perspectiva da interculturalidade, direitos humanos e cultura da paz. Tais finalidades articulam-se aos elementos da formação integral dos estudantes, na medida em que fomentam a aprendizagem da convivência democrática e cidadã, princípios básicos à vida em sociedade. Essa construção e essa socialização de conhecimentos são subsidiadas por meio da mediação do/a professor/a, do compartilhar de experiências entre as/os estudantes, da pesquisa em diversas fontes: internet, leitura e interpretação de textos, análise de fotos, de objetos simbólicos, arquitetura, filmes, entrevistas com líderes e comunidade, entre tantas outras possibilidades. Nessa perspectiva, a área de Ensino Religioso nos anos iniciais do Ensino Fundamental tem a função de desenvolver competências e habilidades relacionadas à primeira etapa da Educação Básica, em especial a unidade temática identidades, diversidades e alteridades. Contribui para a compreensão das identidades a partir de relações de alteridade, nas quais o respeito e acolhimento às diferenças de gênero, classe social, religião, raça, corporeidade, dentre outras, é condição para relações mais justas e solidárias entre os estudantes. Contribui também no desenvolvimento das identidades dos sujeitos, se considerarem-se as experiências e os conhecimentos religiosos já apropriados por eles. Ampliam-se, assim, as possibilidades de aprendizagem diante do conjunto de conhecimentos constituintes da diversidade cultural e religiosa. Nesse sentido, permite-se que os estudantes identifiquem significados relacionados às filosofias de vida, às manifestações e às tradições religiosas, em diferentes espacialidades e temporalidades, de forma a construir sentidos referentes às distintas concepções e práticas sociorreligiosas.

O Ensino Religioso, articulado às demais áreas do conhecimento e componentes curriculares, assume, ainda, o compromisso de participar no desenvolvimento dos processos de letramento e de alfabetização, “[...] para que o estudante desenvolva interesses e sensibilidades que lhe permitam usufruir dos bens culturais disponíveis na comunidade [...] e que lhe possibilitem ainda sentir-se como produtor valorizado desses bens”, conforme estabelecem as Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental de Nove Anos, em seu parágrafo único do Art. 23 (BRASIL, 2010, p. 9). Essa área de conhecimento propicia ao estudante aprimorar progressivamente sua capacidade de leitura de mundo, de modo a ampliar conhecimentos referentes às diversidades, educando-se na e para a alteridade. São conhecimentos que contribuem para a formação ética, estética, sensível e política, além de possibilitar o reconhecimento e valorização como agentes de transformação social e produtores de cultura, por meio das e nas relações com outras pessoas e com a natureza. Nos anos finais do Ensino Fundamental, o Ensino Religioso, articulado às demais áreas de conhecimento e componentes curriculares, assume o compromisso de contribuir com o fortalecimento da autonomia e responsabilidade dos estudantes, com o desenvolvimento da capacidade de diálogo com o diferente em suas diferenças, reconhecendo-se copartícipe dos processos de humanização, de promoção de direitos humanos e da vida na sua integralidade. O acesso a conhecimentos que favoreçam uma reflexão sobre a diversidade cultural e religiosa contribui para o desenvolvimento de atitudes investigativas dos estudantes, possibilitando-os analisar criticamente a sociedade, compreender posicionamentos éticos relacionados às tradições religiosas e filosofias de vida em distintos contextos socioculturais, econômicos, políticos e ambientais, respeitando e valorizando os diferentes grupos étnicos em suas diversidades. Dessa maneira, o estudante dos anos finais apropria-se, progressivamente, de referenciais para compreender e analisar as diversas formas de atuação das religiões. Pode-se, assim, superar concepções e práticas preconceituosas que geram processos de discriminação, intolerância, xenofobia e desigualdades sociais. Mudanças na condição humana e a apropriação de conhecimento contribui, ainda, para a construção de culturas de paz e bem-viver. Reconhecendo diferentes sentidos e significados como elaborações humanas em distintas temporalidades e territórios religiosos, em perspectivas interculturais, problematizando situações de banalização da vida e da morte. À escola, como lugar de trânsito de culturas, não compete homogeneizar a diversidade religiosa, mas garantir a liberdade religiosa, por meio da igualdade de acesso ao conhecimento de todas as culturas, tradições/grupos religiosos e não religiosos, promovendo diálogos interculturais e inter-religiosos, de modo a fomentar o conhecimento e a garantia dos direitos humanos.

8.1.3 Avaliação A avaliação no Ensino Religioso perpassa pela coerência da legislação educacional tanto em âmbito nacional quanto estadual, já descritas no início deste documento, e será adequada aos municípios em suas diferentes redes de ensino. Apenas para retomar, a avaliação faz parte do processo metodológico, portanto um elemento integrador no qual interagem educandos/as e professores/as. Destacamos, assim, o caráter formativo da avaliação. De acordo com Bento (2017), entende-se por avaliação formativa aquela constituída por procedimentos pedagógicos que venham a favorecer as aprendizagens dos estudantes. Isso inclui análises pedagógicas, construção de diagnósticos, definição de indicadores, escolha de instrumentos e de procedimentos de intervenção na sala de aula. Essa avaliação estabelece-se por meio de três operações: elaboração de critérios, definição de instrumentos para diagnóstico e estabelecimento de estratégias de intervenção. Assim, assumir uma avaliação baseada em critérios significa ter claro o que se espera que os estudantes aprendam ao final de um período específico de formação. Logo, no Ensino Religioso faz-se necessário que o/a docente tenha domínio sobre os critérios de avaliação, bem como que os apresente para os/as educandos/as. Os critérios de avaliação têm como ponto de partida os objetivos de aprendizagem, ou seja, aquilo que se deseja que os/as educandos/as apreendam. Nesse sentido, os instrumentos avaliativos deverão ser selecionados sempre com o objetivo de identificar se os/as educandos/as atingiram a aprendizagem do objetivo de aprendizagem em estudo ou não. Os instrumentos avaliativos podem e devem ser diversificados, como: seminários, debates, trabalhos, discussões, provas, entrevista, pesquisa, leituras de imagens, vídeos, socialização musical, entre tantos outros, devendo sempre estar articulados aos conteúdos, aos objetivos e à concepção teórico-metodológica do componente curricular. Ao avaliar em Ensino Religioso é necessário fazer uso da sensibilidade e ter o discernimento que esse componente contribui para uma formação humana e cidadã, didaticamente com base nos aspectos de construção e de formação para a vida de indivíduos em sua singularidade e reconhecimento da pluralidade. Assim, a avaliação da aprendizagem deve ser construída com bases metodológicas e estratégias de ensino que possibilitem ao/a educando/a apreender de forma significativa o valor da formação como pessoa. Os critérios que estão vinculados à organização curricular, entre outras funções no processo ensino/aprendizagem, permitem ao professor conhecer o progresso do estudante e reelaborar a sua prática pedagógica quando necessário. Implicam, dentre tantos outros aspectos, empregar conceitos adequados para se referir às diferentes manifestações, tradições religiosas e filosofias de vida; perpassam, também, pela relação respeitosa com os colegas, em suas opções religiosas e filosofias de vida; pela aceitação das diferentes crenças, de modo a reconhecer que o conhecimento religioso é um dado de cultura e de identidade de cada grupo social. Tudo isso deve vir acompanhado da recuperação de estudo de forma paralela aos conteúdos estudados durante o período letivo. De acordo com os objetivos da aprendizagem, poder-se-á considerar a clareza conceitual; a sequência lógica, riqueza e clareza de ideias; a objetividade na apresentação dos conceitos básicos; as relações justificadas; a criatividade na organização e na apresentação de ideias e de conceitos; a participação conforme os papéis estabelecidos; a participação do grupo durante a exposição; a logicidade de argumentos; a capacidade de síntese das ideias centrais; a apresentação de soluções de problemas, entre outros aspectos a serem observados e utilizados no processo de avaliação do educando e/ou do grupo de educandos. O seu registro poderá ser efetivado por meio de tabelas, gráficos, listas, análise das produções, atividades autoavaliativas escritas ou orais, provas, textos dentre tantos outros instrumentos, em que é possível identificar o progresso na aprendizagem dos/as educandos/as. O mapeamento de resultados informa se o/a educando/a atingiu os objetivos e onde deve investir mais esforços para superar as dificuldades na aprendizagem. Nesse sentido, todo instrumento de avaliação, todo procedimento utilizado para avaliar o processo de ensino e de aprendizagem precisa, em primeiro lugar, de um planejamento. É imprescindível que o educador relacione em seu planejamento, os instrumentos de avaliação que utilizará e que oriente os educandos sobre o seu uso e estrutura, bem como os critérios de avaliação, dando preferência para orientações por escrito e possibilitando a negociação dos critérios.

Confira os Apêndices para cada Ano do Ensino Fundamental nas Páginas 470 a 488.

Formação Continuada - Memória e identidade no Ensino Religioso: Diálogo Entre Lideranças Comunitárias, Povos Indígenas e Imigrantes



REGISTRO MEMORIAL DA FORMAÇÃO
















Por que a Religião Está Mudando Rápido em 2025: Secularização, Migração e Conflitos de Identidade que Todo Professor e Líder Comunitário Precisa Entender

 


COMO AS TRANSFORMAÇÕES DO PANORAMA RELIGIOSO — SECULARIZAÇÃO, DEMOGRAFIA, MIGRAÇÕES E CONFLITO IDENTITÁRIO — RECONFIGURAM A VIDA RELIGIOSA GLOBAL



Resumo

Este artigo realiza uma revisão crítica das transformações recentes no panorama religioso, centrando-se em quatro vetores interconectados: secularização (e suas variantes contemporâneas), dinâmicas demográficas e de “religious switching”, migração religiosa e conflitos identitários (incluindo repressões estatais e instrumentalização política da religião). A partir de relatórios empíricos e literatura acadêmica (2023–2025), sintetiza-se evidência de que o declínio de práticas religiosas instituídas tem mostrado sinais de estabilização em alguns contextos, ao mesmo tempo em que mudanças geracionais e migrações redesenham mapas de afiliação religiosa. O texto discute implicações metodológicas e políticas, propondo um quadro analítico para estudar religião em sociedades polarizadas e migratórias. Conclui com sugestões de agenda de pesquisa e considerações políticas para proteção da liberdade religiosa. 

Palavras-chave

secularização; migração religiosa; religious switching; liberdade religiosa; conflito identitário; demografia religiosa.


1. Introdução

As últimas pesquisas sobre religião mostram um quadro menos linear do que os modelos clássicos de secularização previam: embora em muitos contextos ocorra perda relativa de participação institucional e expansão de indivíduos sem afiliação religiosa, verificam-se simultaneamente padrões complexos de conversão, retomadas e reconfigurações locais. Além disso, os processos migratórios internacionais e regionais, bem como as intervenções e controles estatais sobre a esfera religiosa, intensificaram tensões identitárias. Compreender essas transformações exige atenção a evidências quantitativas (surveys, censos) e qualitativas (estudos de campo, políticas públicas), especialmente diante de desenvolvimentos recentes como a estabilização do declínio cristão nos EUA e políticas de controle religioso em países como a China. 


2. Revisão de literatura e enquadramento teórico

2.1 Modelos clássicos e crítica contemporânea da secularização

A teoria clássica da secularização — entendida como declínio universal da religião à medida que sociedades se modernizam — foi revisada por autores que apontam trajetórias plurais: “desestabilização” em algumas regiões, persistência e transformação em outras (habitus religioso alterado, privatização da fé, espiritualidades híbridas). Estudos recentes sugerem que, ao invés de um declínio linear, observa-se uma diferenciação das formas religiosas (práticas tradicionais, espiritualidades não-instituídas, saliência identitária). 

2.2 Switching religioso, geração e demografia

Pesquisas recentes do Pew Research Center mostram que a chamada “troca religiosa” (religious switching) é um fator central na recomposição religiosa contemporânea: um percentual significativo de adultos mudou sua afiliação em relação à religião de criação, afetando especialmente o cristianismo em várias regiões e contribuindo para o crescimento de não-afiliados (religious “nones”) em contextos selecionados. Essas mudanças têm forte componente geracional. 

2.3 Migração e transmissão religiosa

A migração transnacional altera a composição religiosa dos países de destino e cria dinâmicas híbridas (preservação, conversão ou secularização continuada). A literatura sobre religião e migração registra tanto a reprodução de comunidades religiosas por imigrantes quanto processos de mudança decorrentes da inserção em novos contextos socioeconômicos. Handbooks e conferências recentes enfatizam a centralidade da interseção entre raça, classe e fé na experiência migrante. 

2.4 Conflito identitário e controle estatal

Estudos contemporâneos e relatórios de liberdade religiosa indicam que a religião pode ser objeto de instrumentalização política (narrativas nacionalistas, políticas identitárias) e de repressão direta (limitação de comunidades religiosas, proibições sobre atividades digitais religiosas), com implicações para direitos humanos e coesão social. Relatórios governamentais e institucionais destacam países onde o aparato estatal regula ativamente o espaço religioso. Comissão de Liberdade Religiosa


3. Método

Trata-se de uma revisão bibliográfica e documental seletiva (2023–2025), combinando: (a) análise de grandes surveys e relatórios (Pew Research Center, USCIRF, relatórios governamentais e de ONGs), (b) literatura acadêmica recente (handbooks, artigos revisados por pares e atas de conferência), e (c) cobertura jornalística de mudanças políticas e regulatórias que afetam a religião (ex.: regulação do espaço religioso digital na China). A escolha das fontes privilegia representatividade geográfica e multimetodológica, com ênfase em dados empíricos recorrentes nas publicações dos últimos dois anos. 


4. Resultados / Síntese de Evidências

4.1 Padrões demográficos e religious switching

  • Evidência recente indica que, em alguns países como os EUA, o declínio de afiliação cristã tem desacelerado ou atingido um platô, ao passo que o número de “nones” permanece alto entre gerações mais jovens — resultado de complexa interação entre socialização familiar, migração e escolhas individuais. Esses achados emergem com destaque na Religious Landscape Study (2023–24) e análises subsequentes. 

  • Estudos de larga escala (Pew, 2025) sobre “religious switching” mostram que muitas das alterações na composição religiosa global se dão por mudança intergeracional e por conversões, com perdas e ganhos que variam por tradição e região. 

4.2 Migração como vetor de transformação religiosa

  • A migração redistribui padrões religiosos globais: imigrantes frequentemente recriam comunidades religiosas no país de acolhida, mas também há casos de dessacralização ou adoção de novas filiações. Dados sobre a composição religiosa dos migrantes ajudam a explicar mudanças locais na paisagem religiosa. 

4.3 Estado, tecnologia e controle do espaço religioso

  • Governos têm adotado medidas contemporâneas de regulamentação que afetam práticas religiosas, especialmente no ambiente digital. Exemplos recentes incluem proibições de monetização e operações de live-streaming religioso em plataformas chinesas, refletindo controle estatal sobre instituições religiosas que se tornam economicamente influentes ou socialmente mobilizadoras. Essas intervenções repercutem no modo como comunidades religiosas se organizam e comunicam. Financial Times

4.4 Conflitos identitários e polarização

  • O uso político da religião (ou sua instrumentalização em agendas nacionalistas) tem aumentado o risco de exclusões e conflitos identitários, fazendo com que minorias religiosas e dissidentes enfrentem pressões legais e sociais. Relatórios de liberdade religiosa e análises jornalísticas sinalizam um cenário de crescente contestação sobre quem detém legitimidade moral e simbólica nas nações. Comissão de Liberdade Religiosa


5. Discussão: Interpretações e Implicações

5.1 Entre secularização e ressignificação religiosa

Os dados indicam que falar de “fim da religião” é inadequado; melhor falar de transformação: práticas, instituições e reivindicações identitárias adaptam-se (ou resistem) a modernidade globalizada. A teoria sociológica do campo religioso deve incorporar fluxos transnacionais, mediação tecnológica e o papel da generação nas trajetórias de afiliação. Teoricamente, isso corrobora abordagens que substituem modelos teleológicos por análises de pluralização e contingência. PMC

5.2 Políticas públicas e proteção de direitos

A interseção entre migração, religião e direitos humanos exige respostas institucionais: regimes de acolhimento, políticas antidiscriminação e proteção de liberdade religiosa precisam reconhecer a heterogeneidade das comunidades religiosas migrantes e o papel da religião na coesão social. Além disso, a regulação do espaço digital requer salvaguardas que conciliem prevenção de abusos e respeito à expressão religiosa. Relatórios como os da USCIRF e do Departamento de Estado mostram a urgência desta agenda. 

5.3 Riscos de instrumentalização e resposta civil

Quando atores políticos instrumentalizam narrativas religiosas para fins identitários, observa-se maior polarização e potencial erosão dos espaços democráticos. A resposta exige fortalecimento do jornalismo crítico, educação cívica e monitoramento internacional das violações de liberdade religiosa. Casos de detenção de opositores e restrições regimentadas ilustram como a religião pode ser mobilizada para legitimar ações autoritárias. The Guardian


6. Conclusão e agenda de pesquisa futura

As transformações no panorama religioso em 2024–2025 ilustram uma paisagem dinâmica: nem mero declínio, nem renovação homogênea. Observa-se pluralização de trajetórias — desde plateaus demográficos até migrações que reconfiguram mapas locais —, simultaneamente a pressões regulatórias sobre o espaço religioso (incluindo o digital). Recomenda-se que futuras pesquisas adotem designs longitudinais multinacionais para captar switching intergeracional, estudos etnográficos sobre migrações religiosas e análises de políticas públicas que avaliem impactos das regulações estatais sobre liberdade religiosa.

Sugestões de agenda:

  1. Pesquisas longitudinais sobre religious switching entre jovens urbanos.

  2. Estudos comparativos sobre coesão social em comunidades receptoras com alta imigração religiosa.

  3. Avaliações empíricas dos efeitos de regulações digitais (e.g., proibições de monetização religiosa) sobre práticas institucionais.


7. Referências selecionadas (fontes consultadas)

  • Pew Research Center. Decline of Christianity in the U.S. Has Slowed, May Have Leveled Off. 26 fev. 2025. Pew Research Center

  • Pew Research Center. How the Global Religious Landscape Changed From 2010 to 2020. 9 jun. 2025. Pew Research Center

  • Pew Research Center. The Religious Composition of the World's Migrants. 19 ago. 2024. Pew Research Center

  • USCIRF. 2025 Annual Report. 2025. (relatório sobre liberdade religiosa e políticas estatais). Comissão de Liberdade Religiosa

  • Financial Times. China cracks down on use of live-streaming and AI to sell religion. (Notícias sobre regulação do espaço religioso digital). Financial Times

  • Pew Research Center. Religious Switching in 36 Countries. 26 mar. 2025. Pew Research Center

  • Bloomsbury. The Bloomsbury Handbook of Religion and Migration. 2024. (visão editorial sobre migração e religião). Bloomsbury


Opinião analítica

Com base nas evidências reunidas, entendo que estamos diante de uma fase em que a religião permanece socialmente relevante, mas muda suas formas e canais de expressão. Como professor, líder comunitário ou produtor de conteúdo religioso é estratégico: (a) reconhecer a diversidade de trajetórias (nem todos os jovens que se afastam da igreja tornam-se ateus; muitos permanecem espirituais), (b) adaptar a comunicação para públicos migrantes e digitais, e (c) defender princípios de liberdade religiosa enquanto se atenta aos riscos de instrumentalização. A literatura de sociologia da religião (Lukes, Lickona—e as análises empíricas do Pew) apontam que intervenções educativas e políticas públicas informadas por dados são essenciais para mitigar conflitos identitários e preservar o pluralismo.

As Seitas Mais Perigosas dos Últimos Tempos

Como humanos, tendemos a ter um fascínio por seitas e cultos, pois eles inicialmente atraem pessoas com ideais de uma comunidade utópica. No entanto, o que geralmente começa com um líder enigmático e carismático querendo unir um grupo de pessoas, muitas vezes se transforma em uma ditadura tirânica com consequências desastrosas. Muitas dessas seitas passam despercebidas por vários anos e até décadas, enquanto outras estão no centro da atenção da mídia e continuam a exercer influência sobre milhões de pessoas.

O mundo tem uma longa história de cultos aterrorizantes e horríveis que levaram as coisas "longe demais" - e continuam a nos chocar até hoje. Veja alguns deles:

A Família Manson

A comuna foi fundada na Califórnia na década de 1960. Liderado por Charles Manson, o grupo acabou sendo responsável pelos assassinatos e agressões de várias pessoas. 

Manson e seus seguidores eram aparentemente inspirados pela música dos Beatles, o que desencadeou seu plano de iniciar uma guerra racial e se preparar para um apocalipse iminente.

Charles Manson

O culto ganhou fama e causou comoção nacional nos Estados Unidos após assassinar a atriz Sharon Tate, que estava grávida de oito meses.

Sharon Tate

Happy Science

Também conhecido como Instituto para a Investigação da Felicidade Humana, o culto japonês foi fundado em 1986 por Ryuho Okawa, que realmente acredita que ele é a personificação humana de um ser supremo.

A seita é basicamente uma mistura de religiões mundiais, New Age hokum e nacionalismo de extrema direita. Ryuho Okawa chegou a fundar uma ala política, o "Partido da Realização da Felicidade".

As crenças mais duras do partido incluem negar que certas atrocidades históricas ocorreram e defender que o Japão entre em guerra com a China e a Coreia do Norte. Eles afirmam ter 12 milhões de seguidores em todo o mundo.

Templo do Povo

Fundado em 1955 por Jim Jones, o Templo do Povo dos Discípulos de Cristo ganhou seguidores ao se promover como um movimento religioso ligado ao Cristianismo.


Em 1977, depois de anos ganhando seguidores e alienando-os da sociedade, Jones criou um assentamento para seu culto na Guiana, que ele chamou de Jonestown.

Quando o congressista Leo Ryan viajou para Jonestown para investigar, membros do grupo atiraram nele, desencadeando um incidente que mataria quase 1000 pessoas. Jones convenceu seus seguidores de que, se eles não tirassem suas próprias vidas, o Templo seria dissolvido. No total, 909 pessoas morreram de intoxicação autoinfligida por cianeto.

Raelianismo
O francês Claude Vorilhon, que mais tarde mudou seu nome para Raël, iniciou esta seita em 1974. Ele alegou que os alienígenas uma vez lhe entregaram uma Bíblia e lhe disseram que os humanos eram o futuro.


Durante anos, os membros dessa seita foram vistos como inocentes crentes em alienígenas, e acumularam um enorme número de seguidores. Então, em 2002, as coisas tomaram um rumo estranho quando uma empresa de propriedade do Raelianismo afirmou ter clonado um humano.

Toda a situação se tornou tão polêmica que até a Casa Branca entrou na história. Até hoje, nenhuma evidência real dos clones veio à tona, mas a empresa ainda está vendendo um "dispositivo de fusão de células embrionárias" por US$ 9.000.

Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias
A Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é uma organização fundamentalista mórmon formada pelo líder Warren Jeffs.

O líder espiritual é considerado um profeta de Deus e é a única pessoa na comunidade que tem o poder de realizar casamentos e reatribuir mulheres e filhos a outros homens.

A comunidade pratica a poligamia. Mulheres menores de idade são frequentemente forçadas a se casar com homens mais velhos.

Em 2011, Jeffs foi condenado por agressão s-xual infantil e atualmente cumpre pena de prisão perpétua em um presídio federal. Ele também foi condenado por ser cúmplice de agressão s-xual ao organizar casamentos entre homens mais velhos e mulheres menores de idade.

Warren Jeffs

Aum Shinrikyo
O culto apocalíptico japonês foi responsável pelo ataque ao metrô de Tóquio com gás sarin, em 1995, e por alguns outros atos de terrorismo doméstico também. Muitos dos líderes da seita foram condenados à morte após os ataques.

Em 2007, Aum Shinrikyo foi dividido em dois: Aleph, que manteve grande parte da associação original, e Hikari no Wa, o sucessor mais pacífico.


Igreja Batista de Westboro

A igreja foi fundada por Fred Phelps em Topeka, Kansas, EUA, e é conhecida por crenças extremistas e protestos provocativos que visam caluniar e desrespeitar os outros.

Eles viajam pelo país fazendo manifestações em funerais militares e realizando protestos contra homossexuais. Amplamente conhecida como um grupo de ódio, a igreja acredita que Deus odeia homossexuais, políticos, soldados e outras organizações religiosas.


Doze Tribos

O grupo começou em 1972 no Tennessee, EUA, como um desdobramento de um grupo de oração adolescente que se separou de sua igreja presbiteriana. Desde então, eles ganharam presença internacional.

Entre as coisas que ensina, a seita Doze Tribos afirma que os judeus foram responsáveis pela morte de Jesus Cristo. Essa seita foi acusada de explorar seus filhos para trabalho escravo e de sonegação de impostos.

Ramo Davidiano
Formado por David Koresh em 1959 nos EUA, o grupo se uniu pela crença de que o fim do mundo estava se aproximando. 

Os membros armazenaram armas, preparando-se para um suposto apocalipse. Em 1993, agentes federais tomaram conhecimento das atividades do grupo e invadiram o complexo.

O ataque causou um impasse de 51 dias que se transformou num tiroteio e numa eventual explosão desencadeada por membros da organização. No total, 76 pessoas morreram.


Nação Nuwaubiana

Anteriormente conhecida como United Nuwaubian Nation of Moors, essa seita gira em torno do líder Dwight York, que convenceu as pessoas de que alienígenas estavam chegando e que os humanos deveriam se preparar para uma batalha contra Satanás.


Seguindo as instruções de York, os seguidores compraram terras no estado da Geórgia, EUA, e construíram o complexo temático egípcio Tama-Re. York acabou sendo condenado à prisão perpétua depois que foi descoberto que ele estava administrando uma enorme rede de abuso s-xual infantil.

Heaven’s Gate
Marshall Applewhite e Bonnie Nettles fundaram o culto em 1975, na época chamado de Metamorfose Individual Humana (Human Individual Metamorphosis). O grupo viajou para o deserto do Colorado, EUA, para aguardar a suposta chegada de um OVNI.

Depois que o OVNI não chegou, o grupo se mudou para San Diego, Califórnia, e trocou de nome mais duas vezes antes de se estabelecer com Heaven’s Gate (Portas do Paraíso, em tradução livre).

Em 1997, foram encontrados, mortos e usando roupas idênticas, 39 membros do grupo. Eles foram envenenados por cianeto.

Church of God with Signs Following

Possivelmente um dos cultos mais malucos de todos os tempos, a Church of God with Signs Following (Igreja de Deus com Seguintes Sinais, em tradução livre) também é conhecida como "manipuladora de cobras".

Eles acreditam que as cobras são uma manifestação de demônios, então eles pegam os animais e os deixam deslizar por todo o corpo como uma demonstração de sua fé.


Como seria de esperar, dezenas de membros da seita morreram de picadas venenosas, que eles nem sequer tratam porque acreditam que Deus se livrará do veneno.


Suprema Mestra Ching Hai
A autointitulada Suprema Mestra Ching Hai, que nasceu no Vietnã em 1950, afirma que pode canalizar "a luz interior de Deus". Ela tem mais de 20.000 seguidores e um grupo empresarial internacional que financia seu estilo de vida extravagante.


A Suprema Mestre também prega o ambientalismo, embora tenha construído uma ilha artificial em uma reserva de mangue protegida na Flórida, EUA, que acabou sendo tomada pelo governo federal.

FONTE: MSN

O Perigo do Fanatismo Religioso: 

Quando a Religião é Usada para o Mal



Resumo

O fenômeno religioso acompanha a humanidade desde suas origens, funcionando como elemento de coesão social, fonte de sentido existencial e horizonte ético. No entanto, a religião, ao ser apropriada de maneira fanática, pode se converter em instrumento de exclusão, violência e manipulação. Este artigo, fundamentado nos estudos das Ciências da Religião e em referenciais da sociologia, filosofia e teologia, analisa os perigos do fanatismo religioso e os impactos de quando a religião é usada para o mal. A partir de uma revisão teórica, busca-se compreender como experiências religiosas que deveriam promover paz e solidariedade podem, paradoxalmente, justificar intolerância, guerras e práticas de opressão.


Introdução

As Ciências da Religião se ocupam em compreender o fenômeno religioso em sua diversidade histórica e cultural. Embora a religião, em sua essência, tenha sido concebida como meio de aproximação com o sagrado, construção de sentido e promoção da vida, ela também pode ser instrumentalizada para fins políticos, ideológicos ou violentos. O fanatismo religioso emerge nesse contexto como uma deturpação da experiência de fé, transformando crenças em dogmas rígidos e absolutistas, que frequentemente negam a alteridade e o diálogo.

Paul Tillich (1957) argumenta que a religião deve ser entendida como “a preocupação última” do ser humano, mas quando essa preocupação é absolutizada sem abertura à razão e à alteridade, abre-se espaço para o fanatismo. Da mesma forma, René Girard (1972) demonstrou como a religião, em determinados contextos, pode legitimar mecanismos de violência e sacrifício.


Fanatismo Religioso: Conceito e Características

O fanatismo religioso pode ser definido como uma adesão cega e irracional a doutrinas, líderes ou instituições religiosas, acompanhada de intolerância e negação da diversidade. Entre suas principais características estão:

De acordo com Karen Armstrong (2014), o fanatismo surge quando comunidades religiosas sentem-se ameaçadas em sua identidade e reagem por meio de radicalizações.


Religião Usada para o Mal: Exemplos Históricos e Contemporâneos

Ao longo da história, encontram-se diversos episódios em que a religião foi instrumentalizada para justificar violência:

  1. Guerras religiosas na Europa (séc. XVI–XVII): conflitos entre católicos e protestantes que devastaram populações em nome da fé.

  2. A Inquisição: uso institucionalizado da religião para perseguir, torturar e eliminar dissidentes.

  3. Extremismo contemporâneo: grupos terroristas como Al-Qaeda e Estado Islâmico, que usam narrativas religiosas para justificar assassinatos e ataques em massa.

  4. Fundamentalismos cristãos, islâmicos e hindus: movimentos atuais que buscam impor moralidades específicas, criminalizando minorias e restringindo direitos.

Esses casos evidenciam como a religião pode ser transformada em um instrumento de poder e exclusão, contrariando seus princípios éticos originais.


A Religião e a Ética da Alteridade

Em contraposição ao uso da religião para o mal, autores como Emmanuel Lévinas (1997) defendem uma ética baseada na alteridade, em que o encontro com o outro é experiência primordial da transcendência. Assim, uma religião autêntica não pode se fechar no fanatismo, mas deve abrir-se para o diálogo e para a responsabilidade diante do próximo.

Jesus de Nazaré, segundo os Evangelhos, também denunciou práticas religiosas que oprimiam em nome da lei e propôs uma espiritualidade fundamentada no amor ao próximo (Mateus 22:37-39). Dessa forma, as Ciências da Religião identificam no núcleo das tradições religiosas elementos capazes de prevenir e combater o fanatismo.


Discussão

O fanatismo religioso não é resultado da religião em si, mas de sua manipulação por indivíduos ou grupos que buscam poder, controle ou identidade exclusiva. As Ciências da Religião, ao analisar o fenômeno, permitem compreender que toda experiência religiosa pode ser tanto fonte de vida quanto de destruição, dependendo de como é interpretada e praticada.

Nesse sentido, torna-se urgente promover uma hermenêutica crítica das tradições religiosas, que favoreça o diálogo inter-religioso, o respeito aos direitos humanos e a construção da paz.


Conclusão

A religião, enquanto dimensão fundamental da experiência humana, deve ser compreendida em sua ambiguidade: capaz de libertar e também de oprimir. O fanatismo religioso é um perigo social e espiritual, pois transforma a fé em arma de exclusão. Quando usada para o mal, a religião perde seu caráter transcendental e torna-se instrumento de violência. A superação desse risco exige o cultivo de uma espiritualidade ética, crítica e aberta à alteridade, conforme defendem pensadores como Tillich, Girard e Lévinas.


Referências


Atividades Pedagógicas

10 atividades pedagógicas e lúdicas sobre o tema “O perigo do fanatismo religioso e quando a religião é usada para o mal”, adaptadas para o Ensino Fundamental e em conformidade com o Artigo 33 da LDBEN (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), que garante que o ensino religioso deve ser de caráter não confessional, respeitando a diversidade cultural religiosa e vedando qualquer forma de proselitismo.

As atividades serão voltadas à reflexão ética, respeito à diversidade, convivência pacífica e senso crítico.


Atividades Pedagógicas e Lúdicas:

1. Roda de Conversa: O que é Respeito?

  • Objetivo: Identificar a importância do respeito às diferenças religiosas.

  • Atividade: Sentados em círculo, cada aluno compartilha uma situação em que precisou respeitar alguém diferente. O professor conduz para mostrar como isso se aplica também à religião.


2. História em Quadrinhos Coletiva

  • Objetivo: Refletir sobre o uso positivo e negativo da religião.

  • Atividade: A turma cria uma HQ em grupos: em uma parte, a religião é usada para ajudar; na outra, é usada para excluir. Depois discutem as diferenças.


3. Jogo da Empatia

  • Objetivo: Desenvolver a capacidade de se colocar no lugar do outro.

  • Atividade: Em cartões, o professor escreve situações (ex.: “Um colega não comemora a mesma festa que você”). Os alunos sorteiam e explicam como reagiriam de forma respeitosa.


4. Dinâmica do Balão do Fanatismo

  • Objetivo: Mostrar como o fanatismo “estoura” relações sociais.

  • Atividade: Cada grupo enche um balão escrevendo dentro dele atitudes de intolerância (ex.: “não aceitar o diferente”). O professor estoura os balões e conversa: o que acontece quando o fanatismo cresce demais?


5. Linha do Tempo da Paz e da Intolerância

  • Objetivo: Compreender que a religião pode ser usada para o bem ou para o mal na história.

  • Atividade: Construção coletiva de uma linha do tempo em cartaz com exemplos de momentos de paz (ações solidárias) e de intolerância religiosa (guerras, perseguições).


6. Teatro das Diferenças

  • Objetivo: Refletir sobre situações de intolerância.

  • Atividade: Em grupos, os alunos encenam pequenas histórias: uma mostrando atitudes intolerantes e outra mostrando a mesma situação resolvida com respeito.


7. Mural da Diversidade Religiosa

  • Objetivo: Valorizar a pluralidade de crenças.

  • Atividade: Cada aluno traz imagens ou símbolos de diferentes religiões e formas de espiritualidade (sempre sem proselitismo). Montam juntos um mural colorido intitulado “Somos Diferentes, mas Andamos Juntos”.


8. Jogo da Memória Ética

  • Objetivo: Associar atitudes ao respeito religioso.

  • Atividade: Cartas com pares: de um lado, atitudes negativas (ex.: zombar da fé alheia); do outro, atitudes corretas (respeitar, dialogar). Os alunos jogam em duplas.


9. Oficina de Palavras da Paz

  • Objetivo: Criar consciência sobre linguagem e convivência.

  • Atividade: Em cartolinas, cada grupo cria nuvens de palavras com expressões que promovem paz, diálogo e respeito. Depois, fixam na sala como lembrete coletivo.


10. Debate Regrado: Fanatismo X Respeito

  • Objetivo: Exercitar argumentação e pensamento crítico.

  • Atividade: A turma se divide em dois grupos: um expõe exemplos de fanatismo e outro apresenta alternativas baseadas no respeito e diálogo. O professor media garantindo clima de cooperação.


Observação Metodológica

Todas as atividades:

  • Devem respeitar o Art. 33 da LDBEN: caráter não confessional, sem privilegiar uma religião específica.

  • Focam em valores universais: respeito, alteridade, convivência pacífica e pensamento crítico.

  • Podem ser adaptadas de acordo com a faixa etária (do 6º ao 9º ano).